|
Eis, para mim, um dos mistérios
neurocientíficos mais belos: por que
gostamos de canções de ninar?
Meu pai me ninava, segurando as mãos das
duas filhas, uma de cada lado, com uma
canção que hoje me faz chorar só de
lembrar da única frase que me restou na
memória. Minha mãe me ninava cantando
sobre uma cama na varanda, com flores da
roseira sopradas pelo vento fazendo as
vezes do cobertor esquecido.
É claro que ser ninado nos dá, justo
quando ficamos mais vulneráveis,
adormecidos, a segurança, o conforto e a
tranqüilidade de termos bem perto alguém
que amamos - e o cérebro dá grande valor
a isso, com um sistema especializado em
detectar carinhos. Quem foi ninado sabe
que foi uma criança amada.
Mas não é só isso. Canções de ninar,
pouco importa o tema, têm algo em comum:
o ritmo, que conduz melodias simples a
uma taxa de cerca de sete batidas a cada
dez segundos. Para não me fiar apenas em
minhas próprias canções de ninar, fui
conferir as 22 canções de ninar do disco
do Palavra Cantada, e lá estava o
número: a maioria tinha de seis a oito
marcações a cada dez segundos, e nenhuma
passava de nove por segundo. Por que o
número é importante?
Mircea Steriade, falecido neurocientista
romeno que tinha o olhar cândido e a
testa larga do meu avô cearense,
explica. Especialista nos ritmos
elétricos produzidos pelo cérebro nos
vários estados de sono e vigília,
Steriade descobriu que, quando
adormecemos, o córtex produz ondas de
aumento e então redução de sua atividade
elétrica a um ritmo de cerca de sete
ondas a cada dez segundos. Esse ritmo,
sempre abaixo de uma onda por segundo,
"recruta" o tálamo, que começa a
produzir em sincronia com ele as ondas
delta do sono profundo, que, por sua
vez, invadem o restante do cérebro e nos
tiram da vigília.
Canções de ninar, portanto, talvez sejam
a maneira que temos para, com nossa voz
e palmadinhas em uma cadência de 0,7
batida por segundo, induzirmos o córtex
de nossos filhos a produzir, em
resposta, as 0,7 ondas elétricas por
segundo que convidam o resto de seu
cérebro ao sono.
Meu filho de quatro anos me pede para
ficar um pouco em sua cama, então deito
e canto "Sereno" e "Fui no Itoro-ró"
enquanto dou umas 0,7 palmadinhas por
segundo em seu traseirinho sem fraldas.
Logo depois, é minha vez de ser ninada
por meu marido, com sua fala lenta e
carinhos no meu cabelo: é a canção de
ninar de gente grande.
Nunca medi a freqüência da sua fala -
mas sei que meu córtex gosta, porque
adormece logo... |