IARA BIDERMAN
Colaboração para o Jornal Folha de
São Paulo
O programa não é exatamente o de
seus sonhos. O que você vai ouvir
não será necessariamente agradável
-e pode ser bem pior do que isso.
Você vai expor suas fragilidades,
mostrar-se em trajes sumários e ser
manipulado por pessoas que não lhe
são íntimas. Mesmo assim, ali está
você, firme e forte (ou nem tanto),
esperando a hora de ser atendido.
A consulta médica não é nenhum
prazer, mas pode e deve ser uma
ocasião proveitosa. E não apenas
quando você sai do consultório com a
solução do problema que o levou até
lá. "Pode ser uma oportunidade para
tratar não só daquele problema
específico, mas da saúde como um
todo", diz Geraldo Guedes,
conselheiro do CFM (Conselho Federal
de Medicina) e coordenador da
Comissão Nacional Pró SUS.
Para aproveitar de fato uma
consulta, é preciso se preparar para
ela. Ainda mais nestes tempos, em
que, apesar de a espera costumar ser
longuíssima, a consulta se passa em
minutos, como qualquer usuário de
convênios médicos pode constatar.
Claro que tudo não depende só de
você. "Também depende de como o
médico atende, fala, sensibiliza o
paciente", diz Antônio Carlos Lopes,
presidente da SBCM (Sociedade
Brasileira de Clínica Médica) e
professor de clínica médica da
Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo).
Criar uma boa relação entre o médico
e o paciente demanda uma série de
atitudes, dos dois lados. De sua
parte, veja o que pode fazer.
ANTES DA CONSULTA
1- Reúna as informações sobre
a história de sua saúde para relatar
ao médico. Procure os últimos exames
de imagem e laboratoriais que fez
(raio-X, exames de sangue etc.) para
levar à consulta.
2- Descubra o histórico de
doenças da família, como diabetes,
hipertensão etc. O mais importante
são os parentes diretos: pai, mãe e
irmãos. Mas, se outros familiares,
como avós ou primos de primeiro
grau, tiveram alguma doença
significativa, busque também essas
informações.
3- Se você sente algum
sintoma específico, anote os
detalhes: quando começaram, como
evoluíram etc. Se usou algum
medicamento, anote o nome, a dosagem
e a última vez em que o tomou.
4- O uso contínuo de
suplementos vitamínicos também deve
ser relatado ao médico -alguns
interferem na coagulação do sangue
ou na absorção de certos
medicamentos. Anote os tipos e as
dosagens para se lembrar de avisar o
médico.
5- Anote o nome e as dosagens
de medicamentos de uso contínuo que
porventura tome.
6- Escreva em um papel as
dúvidas que tem sobre o seu estado
atual ou a sua saúde em geral. É
muito comum as pessoas se esquecerem
de perguntar algo durante uma
consulta. Com uma lista escrita,
isso pode ser evitado. Além disso,
as anotações ajudam a manter o foco
da consulta no que realmente
interessa.
NO CONSULTÓRIO
7- Programe o dia da consulta
para ter uma disponibilidade maior
de tempo. Atrasos em consultórios
podem ser inevitáveis e são sempre
desagradáveis. Se você estiver com
muita pressa, acabará se estressando
e entrando tenso na consulta, o que
a tornará mais difícil e, talvez,
menos proveitosa.
8- Para um adulto em condição
de se comunicar e com boa função
cognitiva, o melhor é passar pela
consulta sem acompanhante. É mais
fácil fazer o diagnóstico nessa
relação direta médico-paciente.
9- Caso seja necessário um
acompanhante, ele deve ajudar e
complementar o que o paciente diz,
nunca substituí-lo.
10- Omitir informações, sobre
doenças prévias ou hábitos de vida,
por exemplo, prejudica a avaliação
médica. Seja transparente.
11- Se já há um diagnóstico
anterior, de outro profissional,
também deve ser apresentado na
consulta.
12- Se o médico indicar
exames, tratamentos ou
procedimentos, pergunte os detalhes:
para que servem, se devem ser feitos
imediatamente ou em médio prazo,
quanto tempo durarão, como se
preparar e os efeitos colaterais
possíveis. Se algo o preocupa,
exponha ao médico. Pergunte, também,
quais são as alternativas e os
riscos e os benefícios associados.
13-Ao receber um receituário,
leia-o antes de sair da consulta. Se
tiver problemas em decifrar a letra,
confirme o que está escrito com o
médico e peça que escreva em letra
de forma ao lado.
14- Se foi prescrito um
medicamento com o nome comercial,
pergunte ao médico se há genérico
equivalente.
15- Diga ao médico,
resumidamente, o que entendeu da
consulta. Assim, ele poderá corrigir
alguma interpretação equivocada ou
lembrá-lo de algum ponto importante
esquecido.
16- Peça ao médico orientação
sobre bibliografia e sites na
internet que contenham informações
confiáveis a respeito do seu
problema.
17- Pergunte qual é a melhor
forma de entrar em contato com o
médico, caso tenha alguma dúvida, se
deverá marcar outra consulta para
mostrar os exames e quando retornar.
DEPOIS DA CONSULTA
18- Com o diagnóstico e as
orientações do médico, você pode
buscar mais informações sobre a sua
saúde. Na internet, a quantidade de
dados é tão grande e a qualidade tão
variada que é difícil para um leigo
selecionar o que é confiável. Além
dos sites indicados pelo médico, um
caminho é buscar os sites das
sociedades oficiais de cada
especialidade, conforme o seu caso.
Esses sites costumam ter páginas
para leigos e links para outros
sites confiáveis.
19- A bula dos remédios
também é um emaranhado de
informações e nem sempre o leigo
pode interpretá-las de forma
correta. Se você ler algo que
despertou dúvida ou preocupação,
consulte o médico antes de tirar
conclusões por conta própria.
20- Se você perceber que o
tratamento proposto está afetando
demais o seu dia-a-dia (por exemplo,
levando-o a muitas faltas no
trabalho ou a deslocamentos
difíceis) ou supera suas
possibilidades econômicas, procure o
médico e exponha suas dificuldades,
para, se for o caso, buscar
alternativas. Nem sempre é possível
antever esses problemas na hora da
consulta.
No pediatra, deixe a criança
participar da consulta
Quando são os filhos que precisam ir
ao consultório, a relação
médico-paciente fica um pouco
diferente, com a entrada do terceiro
(e mais importante) elemento em
cena: a criança. Somem-se a isso a
ansiedade natural dos pais e as
resistências infantis e não falta
muito para que o circo seja armado.
Calma. A visita ao pediatra pode ser
uma ocasião tranqüila e bem
aproveitada. "É um momento que os
pais dedicam ao filho, aos seus
cuidados", diz Isabel Madeira,
presidente do departamento de
pediatria ambulatorial da SBP
(Sociedade Brasileira de Pediatria).
Prepare-se para a ocasião.
1- Na primeira consulta do
bebê, leve as informações do
pré-natal e os relatórios da
maternidade.
2- Se a criança fica o dia
inteiro na creche ou na escola, peça
o relatório escolar, do qual
costumam constar dados como hábitos
para dormir e comer, comportamentos
etc. Leve também o cardápio que é
oferecido no local, para o médico
avaliar questões nutricionais e se
algum sintoma eventual (como
alergia) pode estar relacionado à
alimentação.
3- Quando a criança já se
comunica verbalmente, seja sincero:
se a está levando ao consultório,
não diga que vão fazer um passeio. A
explicação do que vai ocorrer deve
ser breve e simples, de acordo com a
idade e a capacidade de compreensão.
Não é preciso se estender; o melhor
é se limitar a responder às dúvidas
que talvez seu filho coloque.
4- Não tente tranqüilizar a
criança dizendo que não terá de
passar por algum procedimento, como
tomar injeção. Se por acaso isso
tiver de ser feito, ela perderá a
confiança em você e no médico, além
de aumentar sua resistência a
consultas.
5- Não desqualifique o que a
criança sente e expressa, dizendo,
por exemplo, "não está doendo".
Tranqüilize-a com objetividade,
explicando que o procedimento vai
demorar só um determinado tempo, que
a dor vai passar e assim por diante.
6- Não use a possibilidade de
visitas médicas como instrumento de
chantagem. Por exemplo, dizer à
criança que, se ela não comer ou não
se agasalhar, terá de ir ao médico
transforma a idéia da consulta em
uma ameaça.
7- A consulta pode atrasar.
Para que isso não se torne uma fonte
de estresse e deixe a criança
agitada, controle a sua própria
ansiedade. Leve algo para ler e
algum passatempo para a criança
-pode ser um livro ou o brinquedo
preferido.
8- Se for necessário dizer
algo que você acha que a criança não
deve ouvir, combine isso antes com o
médico ou volte depois para
conversar com ele. Ficar fazendo
gestos ou tentando falar baixinho é
algo que a criança percebe e pode
deixá-la confusa, assustada ou
ansiosa. O melhor é explicar o que
está acontecendo até o ponto em que
isso não cause sofrimento à criança.
9- Deixe que a criança
participe da consulta, respondendo
por si própria ao que puder (ou
quiser). Mesmo quando a conversa for
dirigida aos adultos, a criança deve
ficar na sala.
10- Se dois irmãos forem
juntos ao consultório, cada um deve
ser atendido separadamente, para ter
o seu momento de consulta
individual.
Fontes:
ANTÔNIO CARLOS LOPES,
presidente da
SBCM (Sociedade Brasileira de
Clínica Médica) e professor de
clínica médica da Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo);
GERALDO GUEDES,
conselheiro do
CFM (Conselho Federal de Medicina) e
coordenador da Comissão Nacional Pró
SUS;
ISABEL MADEIRA,
presidente do
departamento de pediatria
ambulatorial da SBP (Sociedade
Brasileira de Pediatria);
MIRHELEN MENDES DE ABREU,
reumatologista
e autora da pesquisa "Quadro de
decisão: instrumento de apoio à
decisão compartilhada".